Regnum Cypri

Conselho da Nobreza

Palazzo del Proveditore, Amachostos

 

Carta às Potências

 

A Nobreza do Reino de Chipre, consciente do peso histórico das palavras quando os ânimos se inflamam e as armas começam a ser evocadas com excessiva leviandade, dirige a presente nota às Potências atentas aos destinos do Mediterrâneo Oriental, em especial àquelas que, movidas por apreensão legítima ou por juízos precipitados, acompanham os acontecimentos recentes em nosso Reino com inquietação crescente.

É dever dos que receberam da Coroa a honra de títulos antigos e encargos públicos não apenas zelar pela integridade do território e pela continuidade do Estado, mas também falar quando o silêncio pode ser confundido com aquiescência à desordem. Nesse espírito, afirmamos com serenidade, porém com firmeza, que a presença das forças do Reich em solo cipriota não se origina de ambição, conquista ou afronta à soberania do Reino, mas decorre de obrigações formais, solenes e plenamente vigentes, assumidas em tratados livremente pactuados, cujo propósito exclusivo é a preservação da ordem constitucional e da autoridade legítima da Coroa.

A ausência inesperada e voluntária de Sua Majestade Cristianíssima o Rei Michael I Gualda do exercício direto de suas atribuições criou, ainda que de modo transitório, um espaço de vulnerabilidade institucional que nenhum Estado responsável poderia ignorar. Em tais circunstâncias, a história europeia ensina que o perigo maior não reside na proteção acordada, mas na tentação de forças externas ou internas, movidas por interesses escusos, de explorar o interregno para romper a continuidade dinástica, subverter a legalidade e lançar o Reino em disputas cuja violência raramente respeita tronos, povos ou fronteiras.

É precisamente para obstar tais riscos que se ativou o mecanismo de proteção previsto na relação de livre associação que vincula o Reino do Chipre ao Reich, relação esta fundada não na submissão, mas na vassalagem política voluntária, entendida como pacto de fidelidade recíproca: de um lado, a lealdade do Reino à ordem estabelecida; de outro, o dever do protetor de assegurar a integridade territorial, a estabilidade institucional e a defesa contra ameaças externas ou manobras desagregadoras. Não houve anexação, não houve deposição, não houve renúncia à soberania; houve, isto sim, o exercício de um direito e o cumprimento de um dever previstos no direito vigente.

Causa-nos, portanto, profunda preocupação que o Reino de Escorvania tenha optado por interpretar tais fatos como violação de soberania e, mais grave ainda, por anunciar a possibilidade de resposta militar, contribuindo para o aquecimento de uma região que há muito carece de prudência e contenção. Advertimos, com o respeito devido entre Estados, que a escalada retórica e a ameaça de força não apenas distorcem a realidade jurídica dos acontecimentos, como também colocam em risco a paz regional e os próprios tratados que sustentam o equilíbrio entre as Coroas.

A nobreza cipriota, fiel à sua história e aos juramentos prestados, reafirma sua adesão inabalável à atual Coroa, sua confiança na legitimidade das medidas adotadas e seu compromisso inequívoco com a manutenção da paz. Conclamamos, assim, todas as Potências, e em especial a Escorvania, a privilegiarem os instrumentos do direito, da diplomacia e da razão, abstendo-se de atos que possam transformar uma medida de proteção constitucional em pretexto para conflito aberto.

Que fique consignado, para que não haja dúvida, que o Reino do Chipre não deseja a guerra, não a provocou e não dela se beneficiará. Deseja, sim, atravessar este momento delicado sob a égide da legalidade, resguardado contra ingerências oportunistas e preservado em sua ordem legítima, até que Sua Majestade Cristianíssima possa, em tempo próprio, reassumir plenamente o exercício de suas funções. Tudo o mais seria traição não apenas à Coroa, mas à própria ideia de Europa como comunidade de reinos regidos por tratados, honra e palavra dada.

Cumpre ainda recordar, para perfeita compreensão do espírito que anima este Reino, que o Chipre não é apenas uma entidade política, mas um Estado católico por vocação histórica e por ordenamento público, herdeiro espiritual e institucional da tradição da Ordem do Santo Sepulcro. Na sucessão dos séculos e após a perda da Cidade Santa, foi neste Reino que se preservou, em exílio legítimo, a continuidade do Reino de Jerusalém, não como nostalgia vã, mas como missão histórica: a de guardar, sob a égide da Cruz, a legitimidade, a fidelidade à Cristandade e a noção de que a autoridade temporal se ordena, em última instância, ao serviço de Deus e da paz entre os povos. Tal herança impõe à Coroa e à nobreza cipriota um dever acrescido de prudência, contenção e respeito aos tratados, pois onde a fé estruturou o Estado, a guerra jamais pode ser instrumento de leviandade ou pretexto de ambição.

É precisamente por fidelidade a essa tradição, e não por fraqueza, que o Reino do Chipre escolhe a via da legalidade protegida, da aliança honrada e da defesa preventiva da ordem legítima, repelindo tanto a desagregação interna quanto a pressão externa que pretenda explorar o momento de resguardo régio. Agir de outro modo seria renegar não apenas compromissos políticos, mas uma herança espiritual que atravessa gerações e confere sentido ao próprio existir da Coroa.

Salamina e Amachostos subscrevem esta nota não como gesto de desafio, mas como apelo à razão de Estado, à memória histórica e ao dever comum de evitar que o fogo da imprudência consuma aquilo que séculos de pactos e equilíbrios edificaram.

 

Sua Beatitude Isidoro Gualda, Patriarca do Vaticano,
Duque de Salamina

 

Sua Majestade Prussiana Alfons-Filip von Hohenzollern zu Bistritz,
Marquês de Amachostos

Ambos, pelo Reino do Chipre

 

04 de fevereiro de 2025, Anno Domini.